Desobediência civil parte 3: Contra quem devemos usá-la?

Contra o Estado aparelhado por um governo tirano. Este é o exemplo mais comum que vivemos, estudamos e consideramos como hipótese de sua prática em qualquer intensidade de sua aplicação.

Mas o governo que aparelha e corrompe o Estado não é o único inimigo da liberdade. O poder vigente pode vir de tribos, organização social que hoje é chamada pelo politicamente correto de “grupos sociais”.

O que é o poder vigente?

O ser humano é um animal tribal por natureza, nós não vivemos separados da interação social muito menos do coletivo, nós trabalhamos em equipe. Indivíduos livres para interagirem e realizarem trocas voluntárias formam um coletivo forte e responsável. A menor minoria que existe é o indivíduo, e o menor coletivo que existe são dois indivíduos interagindo.

E essa liberdade com responsabilidade é mantida pela força da tribo, e para isso, de uma forma ou de outra, com mais ou menos intensidade, é preciso haver poder. E este poder muitas vezes pode não ser conquistado por uma tribo, mas sim, imposto.

O respeito as normas que este poder vigente colocará como forma de organizar e , ou no caso de um tirano detendo este poder, de controlar, só poderá ser atingido pela consideração ao que essas normas pretendem ou pela imposição à força. O poder e o respeito ao mesmo é conquistado ou empurrado goela abaixo. Só há duas formas de uma pessoa fazer o que deseja: você convence ou a força.

Quando se há respeito pelo poder vigente, não há muito o que se falar em desobediência civil. Talvez, naturalmente, pequenas doses são feitas no dia-a-dia mas de forma a realizar a manutenção da liberdade no sentido de organizar suas tarefas diárias sem freios injustos, não ao ponto de necessitar de manifestações gigantes ou perigos individuais que façam o indivíduo precisar tomar cuidados extremos ao andar ao lado da linha, não nela. Então aqui, quando o poder é respeitado, quando foi conquistado, não há perigos, pelo menos em tese, batendo a porta a todo momento.

O problema da segunda hipótese é que comumente é oriunda de perfis sádicos, falsos, sujos, manipuladores, porém inteligentes o suficiente para justamente tomarem posições de poder dentro da tribo na qual pertencem. Nos tempos modernos, nossas tribos vivem sob o mesmo teto: bairro, município, estado, nação. E contra este poder é que os exemplos mais notórios, heroicos e mais lembrados pela nossa história aconteceram. Até porque, por motivos óbvios, é o poder mais perigoso que pode ser contaminado pela corrupção e imoralidade que criará normas que serão impostas a todos os demais da sociedade.

O poder vigente em nossa sociedade vem das pessoas que dominam dentro ou fora da lei essas regiões onde vivem as tribos, logo, o poder vigente em português bem claro e sem mais delongas, são as pessoas que mandam no lugar. Se este poder e o conjunto de normas que está em vigor é legítimo ou não, na realidade do dia-a-dia das pessoas que ali vivem não importa.

Qual é a diferença entre um fora da lei e um bandido?

Como a desobediência civil é uma manifestação onde o indivíduo se recusa a negociar seus princípios em troca da obediência a uma imposição injusta do poder vigente, ilegítimo para o indivíduo ou tribo, a desobediência civil se difere do ato criminoso no sentido moral puramente no fim, não no meio: o bandido simplesmente desobedece uma lei para fins sádicos, imorais, errados e fúteis, colocando a vida de pessoas boas e honestas em perigo, quando não as ameaça e/ou mata diretamente. Um fora da lei é todo aquele que desobedece leis injustas, não para enriquecer em cima dos outros e para prejudicar inocentes, mas para dizer em primeiro para si mesmo que sua liberdade não será negociada e o seu Eu escravizado. Portanto, todo bandido é um fora da lei, mas nem todo fora da lei é um bandido.

Trazendo para nossa realidade, o poder vigente em menor escala pode ser o tráfico de sua região. Em maior escala, como exemplo clássico, o governo/estado. Se você não aceita as normas dadas pelo mesmo, cabe a você decidir baixar a cabeça ou desobedecer. Neste caso, conforme explicado detalhadamente na parte 2 desta série, você tem intensidades e objetivos diferentes em sua prática: você deseja realizar em seus atos a manifestação pura e certa de que não se ajoelhará perante leis injustas, deseja ir um pouco além da sua intimidade e alertar pessoas ou deseja a exposição máxima do fomento da injustiça que cerca a todos, vindo a público na tentativa de comover a sociedade e bater literalmente de frente com o poder vigente?

As duas primeiras opções são praticamente certas de serem pacíficas, pois o importante para os sociopatas em posição de poder é não tê-lo abalado e ameaçado com sua perda, mas a última é a que tem maiores chances de escalonar e desencadear diversos eventos, inclusive violentos como os chamados “conflitos de baixa intensidade” ou massivos como guerras civis. As vantagens, perigos e consequências dessas escolhas de como praticar e contra quem praticar a desobediência civil veremos na parte 3, que será publicada em breve.

Foto de capa:

Moriori. A tribo neozelandesa que acreditava na paz sem lutar.

 

 

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